TINHA ALGO A DIZER

Fui tomar um rumo na vida e peguei essa rua sem saída. Quando eu era criança eu queria ser astronauta, hoje eu só quero sobreviver. 
Peguei uma ladeira para tentar subir na vida mas me desequilibrei e me esborrachei na descida. Eu também queria ser cowboy, porque diz que no velho oeste você pagava a pinga e recebia o troco em bala, e eu adorava bala.

Mas deixemos isso para um passado distante, junto com a coreografia da Macarena...

Voltando ao assunto, enquanto meus coleguinhas do bairro ficavam passando titica de galinha para fazer a barba crescer, eu me perdia em outro plano astral ouvindo roque e questionando coisas como: "Quem é que acende e apaga a luz dos postes na rua?". 
Hoje eles estão na cracolândia pagando seu lugarzinho no inferno em suaves prestações enquanto eu estou levando esta minha vidinha tão interessante quanto um open bar de dobradinha.

Mas tudo bem, oque importa é a gente se importar com o mais importante e a grande verdade é que eu não sei oque eu estava querendo dizer aqui...



DIA CHATO

Sabe aqueles dias que nem um bolo quente com café numa tarde de inverno te anima? Aquele sentimento vazio de jogar futebol sozinho, quebra-cabeça faltando peça, bola murcha, io-iô sem corda, piscina seca, refri sem gás, caneta sem tinta, programa do Gugu...

A gente olha para fora da janela do escritório e tenta imaginar oque é ser um pássaro em uma gaiola vendo aquele sol bonito lá fora enquanto seus colegas bajuladores se ocupam pagando pau a prestação.
Bate aquela vontade maluca de mexer as pernas o mais rápido possível para qualquer lugar que não seja aqui mas mesmo assim você participa de tudo seguindo aquela forma padronizada de sempre, sendo que na verdade você queria ser qualquer pessoa menos você.

Aí você fica la mais deprimente que um pagodinho romântico só esperando o final de semana para encher o Instagram de selfies felizes.
Passamos a semana mortos esperando o final da semana para nos sentirmos vivos.... eu ainda to tentando entender essa vida mas to mais perdido que uma bolinha de pinball.


NADA COMO UM DIA APÓS O OUTRO

Tudo começou quando um canguru passou de bicicleta do meu lado e levou meu sorvete. Os anões de jardim apenas olharam e não fizeram nada.
Subi na roda gigante e fui registrar o boletim de ocorrência, mas acabei vomitando todo Dolly-cola na minha historia.
Liguei para a Parábola mas ela estava ocupada, então a Anedota veio me dar uma carona.
Assim que subi na nuvem tropecei num paraquedas, o que me fez pensar em comprar um tapete voador.
Depois desse dia corrido,tomei um banho de vento, entrei no meu casulo, deitei no meu cactus e desliguei o sol... nada como um dia após o outro.


BASEADO EM FATOS REAIS

Manuel gostava de viajar...tudo começou quando sua mulher o mandou para a Espanha levar chifre nas touradas. Aproveitou pra exportar a arte do Brazilian Wax com cera automobilística. Funkeiro fanático, matou James Brown por estragar a arte dos MC's. Queria conhecer o mundo inteiro, mas o mundo não queria conhecê-lo. No programa do Bolinha, foi sorteado com um traumatismo ucraniano aí foi embora para Passárgada... dizem que ficou amigo do rei.

BELA CADÁVER

Após abrir a sacola de forma rude e agressiva, típico de quem não se importa mais, puxou a cabeça e encaixou no resto do corpo.
Então veio aquele ar gelado e ardido na sua nuca ao ver o quebra cabeças montado. Estava em frente a um belíssimo exemplar do sexo feminino, e pela primeira vez, sentiu algo parecido com compaixão pelo que estava vendo.
Depois de tantos anos trabalhando naquele necrotério ele nunca havia sentido nada parecido. Imaginou que talvez estivesse apaixonado, havia uma atração muito diferenciada por aquele corpo na mesa. 
Drogas, bebidas e uma suposta traição resultaram em uma mulher sendo assassinada e decapitada pelo agora ex-marido, coisa feia mesmo. 
Ele olhava para o rosto colocado junto ao corpo e imaginava qual lugar do inferno seria reservado para alguém que ousou desfazer aquela obra de arte da natureza. E enquanto o ar ia ficando mais leve, esqueceu-se do cheiro, do silencio e do frio do lugar. 
Imaginou sua Pin-Up maldita sentada do outro lado da mesa no jantar, falando sobre coisas triviais que ele não ouvia - apenas acompanhava o movimento dos seus lábios e o brilho dos seus dentes. 
Acordou de seu sonho quando a prancheta escorregou de suas mãos. Estava ali a sós e calado naquele enorme espaço vazio com aquele corpo esperando autopsia. 
De repente teve uma péssima ideia, olhou para os lados, trancou a porta e abriu o zíper.