NAO GOSTO DE SAIR EM DIAS DE CHUVA

Não gosto de sair em dias de chuva. São pedro é culpado até que se prove, as lágrimas das nuvens não me comovem. Não gosto de usar capa nem bota pois me faz sentir preso, abafado, carregado e todo mundo nota.

Eu não gosto de correr no chão molhado, uma vez todo afobado escorreguei no barro e, alem de quebrar a cara, sujei até a alma de lama. Tentei escapar da chuva, mas até conseguir me levantar acabei me molhando muito mais. Não perdi nenhum dente na brincadeira, mas perdi o orgulho, uma blusa branca e as estribeiras.

Guarda-chuva também é algo que não me acompanha, você evita de molhar a cabeça mas molha todo o resto do corpo, de que adianta? E, alem de ser difícil de achar um lugar para guardar, existe também grande chance de você deixar e ele fugir de lá.

Muito chato molhar o sapato e transforma-lo em um aquário. Me incomoda andar de roupa encharcada, ela parece que ela fica mais pesada.

Quando a gente cresce, a gente fica chato mesmo, eu quando criança adorava tomar banho de chuva. Era um banho ao contrário, onde você sai mais sujo do que quando entrou.

Agora quando a chuva chega eu apenas corro e procuro uma marquise pra pedir socorro, a cada passo esbarrando nos outros.

E conforme o tempo passa me convenço que dias nublados não foram feitos para velhos amargos como eu.


BOM DIA

Hoje levantei com sono, com fome, cansado. Levantei como todos os dias quando durmo no chão. Levantei da cama com o mesmo gosto de quem toma remédio amargo, com cara de quem chupa limão. Levantei as pálpebras para acabar com a escuridão, e as mãos para achar o corrimão. Levantei a tampa do vaso e vi o meu reflexo lá na água e eu parecia um foco da dengue.

Levantei o tapete pra tirar a sujeira que você varreu ontem. Levantei paredes entre mim e a rua passei por cima e saí. No ponto, levantei o braço para o motorista não me deixar para trás. Levantei do banco para dar lugar ao velho, pois se eu já estava cansado e morto por dentro agora, imagine na idade dele.

Levantei a cabeça e respirei fundo ao entrar no escritório, mas antes dei um pulo no mictório.
Na reunião, levantei a bola para cortarem na minha cara e levantei hipóteses que não valiam nada. Levantei a moral de quem abaixa a minha. Levantei garfos e facas para comer marmita fria.

Levantei a cabeça e vi estrelas fluorescentes no céu de mofo e percebi que o dia estava radiante do lado de fora do escritório.

Levantei a voz para alguém me entender em meio ao falatório mesmo não se importando com o que eu dizia. As palavras caiam direto na cesta vazia. Mas apesar de tudo isso estou aqui e vim, mesmo atrasado, te dar um bom dia!