EFEMERO

O amor pode ser forte como raio
Mas é leve como o ar
Pode brilhar como relâmpago
Queimar como fogo
E fluir como água
Mas em alguns casos é tão momentâneo
Quanto uma chuva de verão.



SEGREDOS DO APOGEU

Enquanto proletários selenitas
Se acabavam de trabalhar nas fábricas
E nos campos férteis das colonias marcianas
Os ricos imperadores saturninos passeavam
Com seus discos voadores prateados
Para longe dos seus castelos em Júpiter
Os terráqueos festejam o ano-novo
Com meteoros em saraiva
E eu,
Apenas um colecionador de estrelas
Contemplo a todos pela televisão
Sozinho em minha cápsula do tempo.


DESESPERANÇA

As portas se abrem
Esperando que eu entre
Mas não me deixo ludibriar
Com uma criança falecida no ventre
Estás perdida na floresta a chorar
O céu espelha a liberdade
Para nós inatingível
Justiça para nós é algo inconcebível
E a morte já não é mais algo tão horrível.



AUSÊNCIA

A primavera voltou.
A alegria vestida de branco
Passeava pelos nossos jardins
Mas eu não estava lá.
O céu se iluminou
Depois de tempos passados.
Das bocas saltaram os dentes
Mas eu não estava lá.
Meu orgulho já nasceu
Do ventre de outra mulher.
A família tirou um retrato
Mas eu não estava lá.
Na porta da minha casa
A sorte resolveu bater
A felicidade também me procurou
Mas eu não estava lá.


QUARENTENA

Meus desejos misturaram-se ao pó da estrada
Que a terra fofa engole um a um
De resto não sobrou mais nada
Nem sombra de objeto algum.

Os dados foram jogados
Minha sorte me traiu
Outra vez abandonado
Nesse quarto vazio.

E no espaço onde só há tristeza
Restará a alegria do poeta
Antes que o mundo desabe sobre a sua cabeça
Como disse um profeta.