ODIOS HODIERNOS

A guerrilha se reúne para celebrar a liberdade
Os punks anarquizam o sistema com suas carteiras de identidade
Os detentos quebram as paredes do cárcere e queimam seus colchões
Eles são os problemas e exigem soluções

Avança sobre o povo o leão sanguinário
E neles se atira em ímpetos revolucionários
O ódio se levanta sobre os muros gigantes
Invade as casas e violenta inocentes

A população se esconde com medo
São seus próprios prisioneiros
Os prédios enormes engolem seus espólios
Aquelas mãos que impunham armas agora apertam botões

Pois tudo é mecânico e aos poucos vai se acabando
Os androides festejam a guerra tecnotronica
Seres metálicos ébrios de óleo
Que fazem as engrenagens do mundo seguirem rodando.

TUBAO DE DETERGENTE

Um duende desceu da lua
Quando eu me achava ausente
E tentou me raptar
Com seus pérfidos presentes

Mas o mar em tempestade
Me carregou de volta a razão
Me desfazendo de seus embustes
Disse logo que não

Mas a carne é fraca
Voce sabe oque estou dizendo
Mudando logo de ideia
Tomei todo seu veneno

SÓ MAIS UM

Um novo dia amanhece
Por um novo horizonte
Na verdade é o de ontem
Mas brilha diferente
De repente tudo escurece
E o sangue começa a descer
Ninguém viu acontecer
E ninguém ligaria, afinal
É só mais um.

ESPANTALHO

Madrugada adentro, no meio da plantação
Um espantalho morto desde sua criação
Saiu daquela estaca e foi andando pela terra
Arrancando cabeças com uma motosserra!

Matou uma galinha e um porco
Depois tacou fogo nos corpos
Mas o estúpido esqueceu que era de palha
E também queimou até virar migalha!



O RITUAL

A multidão se reúne
Para fazer um ritual ao Senhor
Um sacerdote joga pragas e gesticula
Como um maestro desta opera do horror

Escolhe uma faca de pedra
Que foi amolada com atenção
Corta a carne e quebra o osso
Para arrancar o coração

O sangue se espalha e escorre
Na direção do povo em prontidão
Receberá os restos deste corpo
Com sorrisos de satisfação

Joga o órgão retirado escada abaixo
O mesmo caminho do sangue ele faz
Felizes e orgulhosos, irão devora-lo
Seu deus está satisfeito e em paz

A carne acalma a fome
A morte acalma o ego
O sangue acalma a sede
Seu deus sorri em contentamento.

O FIM DO MUNDO

Acordei logo cedo
No último dia
Tomei meu último café
E saí pela última vez
Já que era o último dia
Nem olhei para os lados
Nem me importei com nada
Comi meu último almoço
E trabalhei a contra-gosto
No último dia
E esse dia se passou
Daqui a pouco tudo irá acabar
E o último dia amanhece
Novamente
Ainda não foi dessa vez.

NUM BAR

Demônios alados sobrevoam a minha mente
Gritando freneticamente
Volto a tomar o meu diluído copo de soda caustica
Entorpecido pelo álcool e algo mais
Mergulho em pesadelos sobrenaturais
O mundo gira em torno do meu pescoço
Festejando essa embriaguez
Lá fora, o universo, as pessoas, o caos.
Aqui dentro, solidão e silencio total
Estou no escuro, a luz do sol me cega
Uma mosca zomba de mim...
Encha o copo e dane-se!

TRANSPLANTE DE CEREBROS

Fiz um transplante
Que deu errado
Quero indenização

Fui enganado
Fizeram errado
Exijo substituição

Achei que ia
Virar um genio
Mas foi só ilusão

Foi o contrario
Fiquei mais burro
Mas que decepção


Ref:
Meu transplante de cérebro
Nao deu certo não
Peguei um estragado
Agora sou um mongolão

PARAGUAI

Viver aqui está insustentável
Não aguento essa vida de boneca inflável
Todo dia só levando nabo
Vou emigrar desse país zoado

A gente vive sempre com a corda na garganta
vendendo o almoço pra pagar a janta
Será que esse sufoco há de ser eterno?
Talvez seja melhor viver no inferno!


Se tudo der errado, só voltar para o Brasil
Aquele buraco de onde a gente saiu
Ou então descubro aonde você me sugeriu
Esse tal lugar chamado Puta Que Pariu


Ref:
Vou fugir para o Paraguai
E dar orgulho pros meus pais
Pra te tirar da corda bamba
Vou te mandar muita muamba!

SOBREMORRENDO

Eu fui no cemitério
Acender vela pro diabo
Toquei fogo nas flores
O coveiro ficou brabo.

Eu ando só a noite
Pra esconder meu rosto
De dia me rasgo todo
Pra mostrar o meu bom gosto.

A pinga me refresca
O álcool me completa
Aqui dentro tem muito espaço
Dos meus órgãos nada resta.

Não se preocupe
Só estou sobremorrendo
Enquanto o tempo passa
Eu vou derretendo.

Minha vida de zumbi
Se resume a carne humana
Sou um mendigo estiloso
Esse é o meu karma...

Não tenho mais memória
Não sei oque é mágoa
Passo o dia comendo carne
E não tomo nem um copo d'água.

ZUMBI TARADÃO

Quando te encontrei jogada bem ali
Já sabia que era tudo para mim
Fui la e te arrastei pra perto daqui
Agora voce nunca vai fugir

Vou arranjar um caixão bem apertado
Pra nas almofadas nos deitarmos
Agarrar seu corpo sólido
E beijar seus labios gelados

Sempre sonhei com voce
Desde quando eu era vivo
Meu corpo todo enrijecido
Na esperança de te-la comigo

Refrão:
Sou o Zumbi Taradão!
Meu corpo todo duro
Em putrefação!

MEIO-VIVO, MEIO-MORTO

Não é preguiça nem narcolepsia
Sou o que sobrou da autopsia
Condenado a andar todo torto
Agora estou meio vivo, meio morto...

Esse agora é o meu mundo
Nao mais sou um simples defunto
Fazer o inferno e causar desconforto
Agora estou meio vivo, meio morto...

Estou de volta para disseminar o mal
Vou providenciar o seu funeral
Vaguear e odiar é o meu desporto
Agora estou meio vivo, meio morto...

SOBRE O MURO

Sobre o muro da minha casa
Vi carros criarem asas.
Sobre o muro da minha casa
Vi pessoas apressadas.
Sobre o muro da minha casa
Operários virando a massa.
Pássaros saindo à caça.
Sol, lua, vento, chuva.
O barulho inundando a rua.
Crianças pulando em brasa
Aproveitando o tempo que passa.
E eu vendo tudo isso
Sobre o muro da minha casa

PREVIDÊNCIA

Toma, pegue este porquinho de guardar dinheiro e faz teu nome. Guarde tudo. Não é todo dia que se recebe um conselho tao valioso assim. Guarde o conselho também. Pense que se você poupar todo seu dinheiro você vai conseguir realizar todos os seus sonhos que não necessitem de grana, e realizar os os sonhos de quem ficar com a herança.
Acumule tudo que puder mas não jogue no cofre da parede. Esconda em um cantinho escuro da mente ou enterre em algum espaço vazio do seu amanha, que é um lugar onde você pode não estar.


ANTI-HORÁRIO

A caixa do tempo abre-se novamente...
Partículas histéricas de tempo
Pulam e cantam com seus dentes afiados
Sob os tentáculos das árvores.
Dias, horas, minutos, segundos
Números em translação
Correndo à nossa volta com imensa velocidade.
Os ponteiros giram e voltam
Neste círculo vicioso.