BELA CADÁVER

Após abrir a sacola de forma rude e agressiva, típico de quem não se importa mais, puxou a cabeça e encaixou no resto do corpo.
Então veio aquele ar gelado e ardido na sua nuca ao ver o quebra cabeças montado. Estava em frente a um belíssimo exemplar do sexo feminino, e pela primeira vez, sentiu algo parecido com compaixão pelo que estava vendo.
Depois de tantos anos trabalhando naquele necrotério ele nunca havia sentido nada parecido. Imaginou que talvez estivesse apaixonado, havia uma atração muito diferenciada por aquele corpo na mesa. 
Drogas, bebidas e uma suposta traição resultaram em uma mulher sendo assassinada e decapitada pelo agora ex-marido, coisa feia mesmo. 
Ele olhava para o rosto colocado junto ao corpo e imaginava qual lugar do inferno seria reservado para alguém que ousou desfazer aquela obra de arte da natureza. E enquanto o ar ia ficando mais leve, esqueceu-se do cheiro, do silencio e do frio do lugar. 
Imaginou sua Pin-Up maldita sentada do outro lado da mesa no jantar, falando sobre coisas triviais que ele não ouvia - apenas acompanhava o movimento dos seus lábios e o brilho dos seus dentes. 
Acordou de seu sonho quando a prancheta escorregou de suas mãos. Estava ali a sós e calado naquele enorme espaço vazio com aquele corpo esperando autopsia. 
De repente teve uma péssima ideia, olhou para os lados, trancou a porta e abriu o zíper.




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